De que tempo és tu?
Havia um isqueiro na consola de cada carro. Havia uma criança sem cinto no banco de trás. Era normal. Era o nosso tempo.
“Eu sou do tempo…”
É daquelas frases que inevitavelmente todos dizemos.
Mais novos ou mais velhos, o tempo tem esta teimosia bonita de nos deixar para trás - objetos, hábitos, pequenas normalidades que, na sua época, ninguém questionava.
Hoje tudo muda à velocidade da luz. Antes… mudava também. Só que em silêncio. Quase sem darmos por isso.
No mundo da mobilidade, há pequenos “fósseis” que vale a pena revisitar. Não pela nostalgia, mas pelo que nos mostram sobre aquilo que aceitávamos como normal. Hoje começo eu, mas aguardo pelos vossos comentários e desafios para explorar outros “eu sou do tempo…”
Quem é também do tempo dos faróis escamoteáveis?
Os carros piscavam-nos o olho. Literalmente.
Modelos como o Cord 810 abriram caminho ainda nos anos 30, mas foi entre os anos 60 e 90 que estes faróis se tornaram quase personalidade.
O mais icónico automóvel com este “piscar de faróis” é, sem dúvida, o Lamborghini Miura - ainda que fosse um automóvel ao alcance de muito poucos.
Eram bonitos. Eram engenhosos. Eram teatrais.
Desapareceram quando a segurança começou, finalmente, a pesar mais do que a estética. Porque há coisas que, quando colidem com um corpo humano, deixam de ser apenas design.
Também sou do tempo das antenas elétricas.
Aquele pequeno ritual: ligar o rádio… zzzzzt… e lá vinha ela, como se o carro tivesse vontade própria. Vezes havia em que esta automação falhava e lá ia alguém - acuso-me - levantar a antena à mão.
O Cadillac Eldorado Brougham foi um dos primeiros a mostrar esse luxo automatizado.
Mas eram frágeis. Ficavam expostas. Eram vandalizáveis.
Desapareceram quando percebemos que funcionalidade, robustez e eficiência podiam - e deviam - andar juntas.
E dos vidros traseiros basculantes, quem se lembra?
Aqueles que abriam só um pouco. Como quem deixa entrar ar sem fazer barulho.
Num tempo sem ar condicionado, faziam todo o sentido. Carrinhas como o Ford Country Squire dependiam deles para tornar viagens longas… respiráveis.
Aquela pequena janelinha deu-me muitas alegrias em diversas viagens em que colocava a famosa fita de carnaval ali presa e, viajando contra a marcha sem qualquer retenção, via quando eram “pisadas” pelo veículo que se nos seguisse - uma forma curiosa de medir distância de segurança, se assim quiserem considerar, lol.
Hoje quase desapareceram.
Não porque fossem inúteis - mas porque outras soluções se tornaram mais seguras, mais estanques, mais controladas.
Deixei para último aquele “detalhe” que possivelmente todos ainda nos lembramos, mas do qual não temos consciente a dimensão do risco:
os isqueiros na consola central.
Durante décadas, tivemos dentro do carro um objeto que aquece a centenas de graus… ao alcance de qualquer ocupante, num espaço rodeado de plásticos, cabos elétricos…
Era standard.
Era aceite.
Era… normal.
O isqueiro saiu - mas não por causa do fogo. Saiu porque a sociedade foi aprendendo, aos poucos, que o fumo matava. E quando essa consciência chegou, tudo mudou: os cafés, os restaurantes, os locais de trabalho. O carro não foi exceção.
Desapareceu discretamente - mas o buraquinho na consola ainda ficou. Como uma cicatriz que já ninguém sabe explicar.
Se olharmos bem, todos estes exemplos têm algo em comum:
Durante anos, a indústria automóvel foi acomodando comportamentos, satisfazendo vontades e estética - e só mais tarde começou a filtrar tudo isso pelo verdadeiro critério: o risco.
E isto dá-me que pensar:
Hoje ainda há muitas coisas que continuamos a aceitar como normais dentro de um carro – passageiros á solta, cintos mal colocados, cadeiras instaladas à toa e sem orientação profissional, crianças mal posicionadas - decisões tomadas por hábito e não por conhecimento. O problema é simples, mas desconfortável: o facto de sempre ter sido assim não o torna seguro.
